Colapso do metical uma realidade devastadora

Colapso.
Sempre tenho recorrido a esta data, porque, efectivamente, fui o primeiro cidadão nacional a alertar sobre a iminência do colapso em Novembro de 2015. Muitos fizeram pouca fé e só começaram a me dar razão quando o Banco de Moçambique anunciou as limitações no uso de cartões de crédito e débito no estrangeiro e depois de o dólar ter começado a subir vertiginosamente.
O que eu escrevi naquele recuado Novembro, não era nenhuma profecia. Analisei as oscilações do mercado e porque deste há longa data que lido com questões financeiras, me apercebi que estavam a se aproximar dias piores.
Hoje a economia moçambicana agoniza como nunca. Aliás, dados oficiais indicam que o desempenho da economia moçambicana este ano, vai ser o pior dos últimos dez anos.
Hoje, é difícil fazer negócio em Moçambique. Não há nenhuma actividade lucrativa. As empresas, em todas as áreas, só acumulam prejuízos. Muitas ainda não decretaram falência por estar à espera de um milagre qualquer. Não há milagres nos negócios!
Se o Moza Banco foi o primeiro a jogar a toalha ao chão, não nos admiremos quando nos próximos tempos outros bancos forem arrastados pela crise. Por exemplo, de uma fonte bem posicionada no Banco de Moçambique, soube que o Banco Único esteve na iminência de sucumbir há dias atrás, não fosse a rápida e atenta intervenção do Nedbank que aumentou o seu capital social. (atirou a boia da salvação)
Rogério Zandamela
Quando a um de Setembro passado, Rogério Zandamela foi anunciado como o novel governador do Banco de Moçambique, muitos cidadãos nacionais (incautos ou não) pensavam que ele fosse fazer milagres. Volto a dizer: não há milagres nos negócios!
Zandamela herdou de Ernesto Gove cofre vazios. De maneira que o seu trabalho para a reestruturação da economia moçambicana é robusto. O que deu para entender é que não é uma pessoa de receitar paliativos. Administra um injecção letal, ou seja, coloca o dedo na ferida doa a quem doer.
Viu-se logo pela sua pronta intervenção no Moza Banco, instituição que ia somando prejuízos mas Ernesto Gove nada fazia. Eram só paninhos quentes até que veio Zandamela e acabou com tudo. Não restam dúvidas de que o Moza Banco estava prestes a afundar.
Dolar norte-americano
Zandamela, durante algum tempo, conseguiu estabilizar o dólar na casa dos 80 meticais. Todavia, nos próximos dias a moeda americana vai conhecer uma subida desenfreada. Na sexta-feira passada, o Banco de Moçambique tomou medidas, com efeitos imediatos, aumentando as taxas de juro de referência em seis pontos percentuais, para 23,25% nos créditos e 15,5% nos depósitos.
Isto quer dizer que aos bancos comerciais caberá aumentar entre 28 a 30 % anuais. As famosas medidas de Zandamela limitam ainda o acesso ao financiamento à banca. Ou seja, a banca passa a ver limitado o acesso para um máximo de duas vezes por semana, ao financiamento por sua iniciativa, através do recurso à janela de FPC (Facilidade Permanente de Crédito) e terá de comunicar ao banco central três vezes por dia as suas taxas de câmbio, uma medida que visa corrigir a actual falta de transparência nas transacções com o público.
Futuro da banca.
Em 2000 a banca ainda constituía um dos melhores negócios em Moçambique. Não é por acaso que nas principais artérias da cidade de Maputo, em particular, vemos uma média de três a quatro dependências de bancos diferentes. Nesse período, as taxas de juro estavam estabilizadas.
Há dias, estive num jantar de negócios com um amigo banqueiro malawiano. Há anos atrás, comprou um banco em Moçambique por uma soma de 20 milhões de dólares- incluindo os seus activos e passivos. No processo da compra, o dinheiro foi transferido do banco central malawiano para o homónimo moçambicano.
Ao câmbio da época em que comprou o banco (32 meticais o dólar), terá desembolsado 640 milhões de meticais. Actualmente o banco tem um total de 10 dependência e com alguma perspectiva de expansão.
Vejamos: hoje os 20 milhões investidos na compra do banco valem 7.750 milhões de dólares. O que significa que em dois anos perdeu 12.250 milhões de dólares investidos. (Desvalorização da Moeda).os 620 milhões hoje são 7.750 milhões de usd.
E todo o dinheiro investido está nas mãos dos clientes do banco que não conseguem honrar os seus compromissos mensais devido à crise.
O banco gera lucros mensais de 10 milhões de meticais, o que equivale actualmente a 125 mil dólares. Desse lucro há que distribuir pelas despesas administrativas (salários, aluguer de instalações etc., etc.), o que totaliza 8.8 milhões de meticais (cerca de 110 mil dólares). No fim, o lucro real do banco é de 15 mil dólares mensais para um investimento que custou 20 milhões de dólares!? Está claro que este meu amigo investidor corre sérios riscos de não recuperar o dinheiro que investiu.
Metical, moeda moçambicana
Busquei este exemplo para vos fazer ver qual é a realidade da banca hoje. E com as recentes medidas tomadas pelo Banco de Moçambique, nenhum banco a esta altura é capaz de gerar lucros.
Este sector está em crise. Mas não é só a banca. Há muito por se dizer sobre a crise financeira moçambicana. O certo é que este Governo, desde que a crise eclodiu, sempre tentou tapar o sol com a peneira, ou seja, mentiu aos moçambicanos ao dizer que não serão afectados.
Por exemplo, esta semana o Ministério da Economia e Finanças pediu aos credores das empresas beneficiadas pelas famosas dívidas ocultas a reestruturação da dívida porque não têm dinheiro para pagar. O Estado é que devia pagar esse dinheiro e se mostra incapaz.
E, como se não bastasse, Moçambique pede uma ajuda financeira ao FMI. Mas o FMI tem regras. E de acordo com elas, não pode ser dada ajuda financeira a um país com dívida em esforço ou problemática, e para avaliar esta mesma dívida o FMI recorre a cinco indicadores.
Acontece, porém, que actualmente, Moçambique fura todos os cinco indicadores para avaliar a sustentabilidade da dívida. Para além da questão técnica, Moçambique tem também um problema de credibilidade política junto do FMI e dos credores internacionais, depois de ter ocultado dívidas no valor de 1,4 mil milhões de dólares contraídas nos últimos anos, e por isso os credores internacionais exigiram a realização de uma auditoria externa para retomar as conversações com vista ao reinício da ajuda financeira.
Este colapso ainda vai provocar estragos diluvianos!!!!!
Nini Satar

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