Jornalismo moçambicano perdeu muita qualidade e regrediu

Desde sempre preocupei-me em ler as notícias publicadas nos jornais moçambicanos. É verdade irrefutável que se perdeu muita qualidade, embora existam alguns nomes respeitáveis no jornalismo moçambicano. Não vou mencionar nomes dos jornais e nem dos jornalistas. Não é esse o propósito. O certo é que é triste ver que alguns princípios básicos do jornalismo, que hoje são rasgados levianamente.


Acima de tudo, denota-se uma avidez dos repórteres em correr para publicar sem que o artigo haja sido completado. Grosso modo, pontapeia-se o contraditório, ou para se fingir que se investigou alguma coisa usa-se a velha muleta: fontes anónimas.
Parto de princípio, por exemplo, que qualquer jurista ou advogado que dê a sua contribuição ao jornal, para um artigo ligado à sua área, gostaria de ver o seu nome lá. É, por outro lado, uma forma de auto-promoção. Mas, bastas vezes, temos sido entulhados com aquela velha e cansada táctica de que “alguns juristas que falaram em anonimato disseram…”. Para mim, quando isto acontece, percebo que por detrás destes dizeres não há jurista nenhum. E logo percebo que o artigo é duvidoso e deve ser, provavelmente, uma encomenda ou fabricado.
Qual é o jornalista que não gosta de escrever um texto completo: fontes mencionadas, datas, contraditório, etc.? É verdade que à coberto da Lei de Imprensa pode não se indicar a fonte, quando esta pedir anonimato. Mas fazer disto um estilo, é aborrecido, enfadonho e menos convincente.
Há boas estórias que talvez deveriam merecer um tratamento adequado, mas são publicados em muitos jornais da praça às pressas. Vê-se que ou o artigo foi encomendado ou o repórter não teve dentes suficientes para mastigar a noz. É aquele velho adágio de dar nozes a quem não tem dentes. Como consequência, temos essas fontes anónimas, falta do contraditório, ou seja, há muita leviandade no jornalismo de hoje. É uma selva autêntica.
Por exemplo, eu leio o “Washington Post”, dos EUA; o “Bild”, da Alemanha; “The Sun”, de Grã-Bretanha; “ Daily Mail”, Grã-Bretanha; “ The Mirror”, Grã-Bretanha; “ New York Times”, EUA. As estórias que lá encontro são completas. Não é jornalismo de denúncia. São coisas investigadas, trabalhadas e vê-se que o repórter teve um trabalho árduo para completar o seu artigo. É o que acontece em Moçambique? Não. Mil vezes não.
Opinião
Actualmente, até temos escolas superiores de jornalismo, mas a mediocridade acentua-se cada vez mais. Nenhuma destas escolas já produziu alguém com tarimba, como o Migueis Lopes Júnior, Carlos Cardoso, José Quatorze, Filipe Ribas, só para citar alguns exemplos.
E, julgo eu, que hoje é que estão melhor criadas as condições de aprendizagem. As referências são várias. Pode-se ler qualquer jornal do mundo quando melhor se entender. E é a partir dessas referências que se aprende alguma coisa. Mas o que temos é uma selva completa: alguns são porta-vozes de partidos políticos, outros são puxa-sacos, tantos escrevem artigos encomendados. Não há lógica. Qual é a função, afinal, dos editores e chefes de redacção, ou seja, quem é, hoje, o editor ou chefe da redacção?
Perdeu-se muita qualidade. Regrediu-se. E, na verdade, se em cada artigo que muitos jornais publicam os visados intentassem um processo nos tribunais, muitos jornais já teriam fechado as portas. Já teriam deixado de circular. O jornalismo hoje virou uma profissão de sobrevivência. É verdade que sempre houve aquela velha máxima de que o jornalismo não enriquece ninguém, mas os que ontem estavam nesta profissão, faziam-na por paixão, vocação. Hoje há muita escumalha neste meio. Se eu pertencesse à classe, bater-me-ia pela introdução da carteira profissional. Só isto pode normalizar a profissão e devolver-lhe o brio de outrora. A um escrutínio severo, muitos dos que escrevem barbaridades seriam chutados à rua!
Um abraço
Nini Satar

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